Reflexos da Percepção

Por Silvia Helena Cardoso



Quando você olha esta imagem de perto vê Albert Einstein.
           Mas se você apertar um pouco os olhos ou se afastar a cerca de 5 metros vai transformar-se em
           Marilyn Monroe.
           Como isso é possível?

           Parece quase mágico. Para ajudá-lo a entender, precisamos explicar como essas imagens foram construídas.
           Um retrato normal, fotográfico ou desenhado, contém vriações das chamadas “freqüências espaciais”, que podem
           ser de dois tipos. As freqüências espaciais “altas” se  referem aos detalhes, aos traços finos de uma imagem. Já as
           freqüências espaciais “baixas” estão nas linhas largas e nas  bordas embaçadas, sobretudo de objetos grandes. A maioria
           das imagens contém um espectro de freqüências que vão da alta à baixa, em proporções variáveis.
           Usando algoritmos de computador, pode-se processar um  retrato normal para remover seletivamente diferentes
           freqüências espaciais. Se as altas forem removidas, teremos uma imagem borrada. Este procedimento de embaçamento é
           chamado filtro passa-baixo, porque barra as freqüências altas (bordas precisas, linhas finas) e deixa passar as
           baixas. O filtro passa-alto, por sua vez, faz exatamente o contrário: mantém as bordas definidas e os contornos
           delicados e remove variações de larga escala. O resultado parece um pouco um esboço sem sombreamento.

           Esses tipos de imagens processadas por computador são combinadas, de maneira atípica, para criar os rostos que se
           transformam misteriosamente. São usadas fotografias normais  com a face de Einstein e de Marylin. Então cada rosto é
           filtrado para obter tanto imagens passa-alto (contendo linhas finas e definidas) quanto passa-baixo (borradas).
           Depois são combinadas a foto do passa-alto com a face do passa-baixo.

           O que acontece quando os retratos são vistos de perto?
           Primeiro, a imagem precisa estar próxima para você ver as características mais definidas. Segundo, quando visíveis,
           elas “mascaram” objetos de larga escala (freqüências espaciais baixas) ou desviam a atenção deles.

           Assim, quando você traz a imagem para perto, as características definidas tornam-se mais visíveis,
           mascarando aquelas pouco definidas. Ao deslocar a página mais para longe, seu sistema visual não é mais capaz de
           processar os detalhes finos; a expressão transmitida por  eles desaparece e apenas as freqüências baixas são expostas
           e percebidas.

           As fotos ilustram uma idéia originalmente formulada pelos cientistas Fergus Campbell e John Robson, da Universidade de
           Cambridge. Eles demonstraram que informações de diferentes freqüências espaciais são paralelamente captadas por vários
           canais neurais, cujos campos receptivos são de variados tamanhos (o campo receptivo de um neurônio visual é a porção
           da retina na qual um estímulo precisa ser apresentado para  ativá-lo). Isso também mostra que os canais não funcionam
           isolados. Ao contrário, interagem de maneiras interessantes, por exemplo: as bordas definidas captadas por pequenos
           campos receptivos mascaram as variações borradas de grande escala sinalizadas pelos campos receptivos maiores.


Se você se afastar ou apertar os olhos,  a face da esquerda ficará calma, e a da direita brava.


Se você se afastar ou apertar os olhos,  verá a imagem de Lincoln

           ----------------------------

           Adaptado de Vilayanur S. Ramachandran e Diane
           Rogers-Ramachandran
           Mente e Cérebro